quarta-feira, novembro 29, 2006

Deja Vu

- Faça um desejo. – lhe disse o anjo, ternamente.

O pobre homem, assombrado, apenas o observava atônito. Seus olhos seguiam por aquelas imperiais asas brancas com marfim, para a espada de brilho dourado, não ameaçadora mas protetora, para finalmente descansar nos calmos olhos do próprio anjo, que lhe sorriu e disse:

- Você está seguro aqui. O tempo de suas tribulações está encerrado. Faça um desejo, e ele lhe será concedido.

- Eu posso voltar? – pediu, trêmulo – Viver novamente. Renascer uma criança, eu mesmo, anos atrás?

- Viver novamente, amar novamente, ter maiores aventuras... Existe grande sabedoria neste desejo. – lhe respondeu o anjo, sempre tão paterno – Mas, saiba que sua vida não seria a mesma da qual você sente tanta falta. Todo evento ocorre senão apenas uma vez.

- O que isso significa? – perguntou-lhe o homem, retomando, pouco a pouco, sua calma

- Você terá novos problemas a enfrentar, novas pessoas a conhecer. Talvez, ter que passar novamente por muitas das dores e momentos difíceis, sem saber nunca se você terá a força para resistir a tudo. Batalhar mais uma vez por cada conquista, e nem sempre ter as mesmas chances de uma vez. Talvez nunca encontrar a sua pessoa amada, ou a ver entregue aos braços de outro alguém. Perder amigos, ou correr deles em inimigos. Suar, dia após dia, para conseguir o seu pão, ver como olhares uma vez cúmplices agora o enxergam como um estranho. Lutar para que tudo dê certo, o que talvez nunca ocorra. A sua vida será tão incerta quanto da primeira vez que você a viveu, mas, ainda, será a sua vida, apesar de tudo. Você ainda a deseja? Escolha sabiamente.

O homem teve medo, por estar, agora, diante da maior das escolhas às quais ele esteve sujeito. Tinha medo de ser seu próprio carrasco. Lembrava de seus melhores momentos: de quando seu filho nasceu e de quando ele se formou na faculdade; dos sorrisos de seus pais e das brincadeiras com seu irmão quando eram pequenos, pouco antes dele morrer: talvez tivesse que passar por isto novamente. De quando conheceu a garota de sua vida, e das desilusões que teve. De todos os amigos e de muitos bons dias e noites que passou com todas estas personagens, antes de sua história acabar. Começou a chorar e sentou, onde estava, ao chão, apoiando seu rosto em seus braços cruzados sobre seus joelhos.

- Eu vou me lembrar desta minha vida? – perguntou, secando parte do rosto com a palmas

- Você apenas terá sensações. Breves momentos de uma familiaridade que você não conseguirá decifrar. – lhe disse o anjo, agachando ao seu lado, e lhe segurando uma das mãos, paciente e fraternamente. – De alguma forma você saberá que está próximo de algo do qual você fez parte.

- Eu não posso voltar, não para perder tudo. – chorou

- Você nunca perderá tudo. O seu universo estará sempre aqui, aguardando o seu retorno. Nós nos veremos novamente, e eu o encontrarei mais sábio.

O anjo ajudou o homem a se erguer e lhe disse:

- Não tenha medo. Apenas escolha. Não existe vitória ou derrota: existe percurso. E eu acompanharei você por todo o caminho.

O homem retornou e os seus caminhos se cruzaram muitas vezes com os de pessoas que uma vez ele conheceu. Ele passou por novas experiências, transpôs novos desafios, e quando retornou ao pó, retornou também perante o anjo, que lhe ofereceu:

- Faça um desejo.

Mas, agora, o homem já sabia o que escolher.

terça-feira, novembro 28, 2006

SCRUM!


Ombros em ombros, de cada lado fileiras se preparam para o embate. Ombros em ombros avançam, com força, batendo uns contra os outros criando a formação. Ombros em ombros se travam, e é solta a bola, para que ambos os exércitos disputem por ela. E eles disputam!

As travas das chuteiras arrancam pedaços de terra e grama com a tração dos monstros, que rosnam, e empurram. A bola, solta sob aqueles pés, salta, louca, de lado para outro, rapidamente. Músculos geram potência contra potência, em uma competição por território. Ambos os lados tentam avançar sobre o oposto, em um esforço conjunto de todos os guerreiros. Até que, tão logo a bola é conquistada, o jogo corre, agora aberto.

BREAK!

Intenso! Breve, porém intenso.

Ao final do segundo tempo do jogo, ambos os lados do scrum, e também os backs dos dois times, seguem para o terceiro tempo (Entenda-se: cerveja, risadas, e comentários inapropriados). Um bom dia para o Rugby.



*Compreendamos, então, o perfil dessas figuras: Decididos, ao menos em sua boa parte; bem preparados fisicamente, embora as barriguinhas de cerveja e shandy possam indicar o contrário; inteligentes, que disputam um jogo não somente divertido, mas que garante o bom preparo físico já mencionado e ajuda a canalizar o stress de maneira saudável; bom caráter, demonstrado a todo o momento através de seu espírito desportivo; gentlemen, como bem indica o velho ditado do esporte. (Foi uma análise estranhamente positiva, mas eu sou suspeito mesmo, admito...Hahahaha)

Primus Inter Pares

O verdadeiro conceito do mérito humano, no qual todos possuem um dizer, e todos possuem o igual valor, mas onde a sabedoria e as qualidades tomam lugar e assumem um degrau maior de respeito. Respeito conquistado.

A admiração afoga o ego, e forma um grupo de seguidores, não apenas do indivíduo, mas do ideal que ele representa apenas em ser quem é. Seguidores que não são seguidores, mas partes iguais de um mesmo grupo. As capacidades são niveladas para cima, e todos se aproximam de seu verdadeiro potencial. Todos se tornam arquitetos de grandes conquistas. É essa unidade que cria cidades, que ergue impérios, que traz paz e prosperidade para um grupo, qualquer seja ele.


Mas, para que o primeiro exista, eles todos devem ser iguais. Iguais não em capacidade, mas em caráter, e devem dividir um mesmo ideal. Nossa história não nos mostra muitos desses momentos, o que sempre deixa para trás ceticismos quando estamos frente a frente com essa capacidade. Aprendemos a não confiar em líderes, e também naqueles que nos cercam, por próximos que sejam, e nossa suspeita nos fez desiguais.

Estamos em constante revolução, e todos estão tentando assumir o poder.

Uma questão democrática

Mas, todos querem ter o direito de opinar, é claro, e, para obter a sustentabilidade (necessária a qualquer sistema de organização de pessoas), todos recebem o poder. É claro que, como era de se esperar, quando todos têm o poder, nenhum tem a responsabilidade, que muitas vezes fica para as circunstâncias. (Ou, também comum, para um bode expiatório). Pouco importa, enquanto ninguém precise se preocupar com nada.

A democracia, a exemplo do Capitalismo, possui apenas um problema: o Ser Humano. (Engraçado que é o mesmo problema que criou a necessidade da existência de alguma forma de organização, e que ainda vai tirar o sono de muitos pensadores por terras e por tempos que passem).

Despedida

Mais um momento de reflexão e saudade para todos, mais um amigo sob esta terra onde, um dia, estarão todos os demais. Apenas, muito cedo, muito jovem, como todos os anteriores. A mãe do jovem sofria sozinha, por braços que tentassem a consolar. Todos ali, na verdade, juntos, mas afastados em seus mundos interiores, tentando se afastar dali. O padre dizia:

- Nesta hora triste, existe uma mão que está para nos amparar. Ele disse: Vão, e não tenham medo, pois Eu os guiarei pelas planícies secas até os leitos dos rios, Eu comandarei a chuva por sobre sua plantação, Eu trarei o vento fresco quando estiverem sem fôlego, Eu lhes darei a justiça...

Neste momento, um grupo dos jovens se levantou quase tumultuosamente, seguindo em direção à porta, como já ocorrera antes, anunciando a pegada de armas.

- Não! – berrou, quase descontrolada a mãe do jovem morto

Todos ao redor a seguraram, que se esperneava, com força. Ela gritou para os jovens que saíam:

- Um olho por olho e o mundo inteiro ficará cego!

Eles apenas a olharam, e o líder deles respondeu:

- Você já está cega se você pensa que vingança é a causa. – apontou o dedo ao redor da igreja - Vocês todos! – então, disse, quase com nojo em sua voz – Esperem sua salvação e justiça por aqui. Nós vamos lutar por ela. - partiu para fora

O padre, cansado e já de idade, apoiou seu rosto sobre a mão com a qual conferia as bênçãos, mas não obteve qualquer conforto. Perdia, lentamente sua fé: já havia visto demais daqueles garotos morrerem sem que ele pudesse fazer qualquer coisa por eles. Algumas das pessoas partiram a ajudar o padre, que visivelmente estava abatido demais para continuar.

Não havia mais fiéis naquela igreja. Havia apenas um momento coletivo, onde o único conforto era em ver os olhares ainda com brilhos dos amigos com os quais eles ainda dividiam a terra.

segunda-feira, novembro 27, 2006

Da selva

Nós que moramos na selva, e não na copa das árvores, sabemos apenas como tomar o que nós queremos, matar quem nós odiamos, competir por todas as coisas, e disputar recursos. Não existe a parceria. Existe o direito da força, e sangram os fracos. Quando você descer das copas, não pense que lhe somos hostis por vingança, pois não cremos que a culpa de nossas contas é sua. Saiba que apenas somos hostis.

No rest, no mercy, no matter what

Não-Degradável

O homem é imortal por seus desejos, e mortal por seus temores, já dizia Aristóteles. Ele sabia bem que o homem tinha, em essência, boas intenções, grandes sonhos, queria ser melhor, mas acabava transformado, domado, pelo mundo à sua volta. Torna-se algo pior, menos interessante, menos luminoso. Ao menos em sua maioria.

Alguns ainda retêm seu caráter divino, e buscam terras abertas, com grandes céus azuis. E todos, mesmo aqueles que supostamente perdem seus valores, podem os retomar a qualquer momento. Os valores não são degradáveis, eles são etéreos e eternos, e precisamos apenas querê-los para que comecemos a tê-los.

Não existe Passado que governe o Futuro de qualquer pessoa, existe apenas o determinante Presente, e o alguém que pode ser tudo o que se dispuser a ser. A chave: concentração, foco.

sábado, novembro 25, 2006

Bye Bye

Acabou, acabou...É uma pena
(Que tenha demorado tanto)
Mas, chegamos no momento
De ver novamente o sol
De esquecer o que fez mal
De jogar a bola pra frente.
(Nunca no Rugby, claro)

Agora, vou...E eu não volto
Não pretendo olhar pra trás
Vou seguindo pelo asfalto,
Sorrindo a torto e a direita,
Mandando beijos para o alto,
A cada passo um novo...
(Bem, vocês entenderam.)

Cásper, Cásper, Cásper...Tsc, tsc
Eu tentei, mesmo, melhorar algo ali,
E fiz inimigos com poucas palavras
Sempre palavras de boas intenções,
Que se tornaram hostilidades com o tempo:
Sentença naquele lugar que me tornou pessoa pior.

Faltam palavras...
Queria e queria escrever poema,
Mas, sou tomado pela energia, só aquela energia, aquela mega-hiper-mega-mega-energia:ACABOU, CARALHO!!!
Yahoo! (não confundir com a empresa, mas reconhecer como interjeição de felicidade)
Yes!!! Bye, bye, baby! See ya!!!

"Ei, um momento, ainda há a formatura."
Ai, droga... Tinha esquecido disso...
(Por outro lado, agora percebo que,
Quanto tudo estiver acabado,
Terei saudades.)

quinta-feira, novembro 23, 2006

Agape

- Foi para o melhor... O tempo separaria vocês, mais dolorosamente. - tentou, Diana

Mas, Ângelo não conseguia a escutar. Suas pernas se perderam de sua força e ele apenas chorava, depressiva e desesperadamente, nos ombros de Samir. Seu amigo o segurava, apertado, tentando lhe dar o conforto que apenas os braços e o sorriso de Dalila o trariam.

- Por quê!? – clamou Ângelo, em soluços, para si mesmo

Nos milhares de anos, pelas centenas de vidas, pelos incontáveis momentos juntos, nenhum deles jamais havia visto Ângelo desmoronado em um homem. Apenas um homem: frágil, destruído.

- Por que podemos sofrer tanto, se nem mesmo temos alma para nos dar alguma esperança? – chorou, Ângelo, a seus amigos

Diana desabou em choro, e deixou rapidamente a sala. Cada olhar a observou partir, com mais força o de Samir, que conhecia bem o coração da antiga amiga. Diana chegou à cobertura, para tomar um pouco de ar, ainda com lágrimas que continuavam a escorrer de seu rosto por mais que ela tentasse secá-las.

Diana lembrou de outros tempos nos quais Ângelo costumava sorrir sempre, muitas vezes para ela. Lembrava de outras épocas nas quais eles estavam sempre juntos. Não! Ela havia pensado, como sempre, no bem de Ângelo. Não havia culpa em suas mãos! Ângelo sofria agora, mas daqui em diante ele poderia buscar alguma paz para si mesmo.

Diana temia, no entanto, que ela mesma nunca mais fosse a encontrar.

Mesmo no vale da sombra e da morte

Translação

Estamos em movimento: sempre puxados por uma gravidade irresistível, sempre atraídos em direção à nossa luz, sem nunca a alcançar e também sem desistir. A gravidade, que é universal, age de todos os lados, de todos os corpos, como os desejos de todos, mantendo o mundo em movimento. A nossa própria gravidade, nossa própria relevância, nos mantém ativos, mesmo que nem sempre tenhamos algum padrão – Somos uma inconstante constante de vetores e forças eletromagnéticas.

Metáforas à parte, é fácil perceber, quando olhamos ao redor, o quanto as pessoas buscam ser parte de algo importante, buscam estar cercadas por pessoas que as apreciam e por pessoas que as tornem melhores em si mesmas. Buscamos pessoas ao nosso redor, somos atraídos a elas, assim como as atraímos. É fácil querer um sol que esteja ao centro de nossos anseios, um objetivo que sempre estejamos prestes a alcançar. Ter um propósito é essencial.

Mas, não podemos esquecer que estamos, e estaremos, também, nos centros de gravidade de muitos outros. (Às vezes, nós nos esquecemos disso por estarmos tão concentrados em nosso próprio eixo). Somos relevantes para outras pessoas, e deveríamos tentar ser mais como o Sol do que como a Terra: não buscando ser, mas sendo; nunca margeando, mas ao centro; não errante, mas definidos.

Caso nós consigamos atingir esse novo estado, tudo estará sempre bem em nosso pequeno universo – as energias tendem a se equilibrar quando estamos equilibrados.